Imagem de um jornal de supemercado em tons de cinza e amarelo com o preço de diversos produtos sobre uma mesa com uma xicara de café ao lado
Varejo

Os 40 produtos que definem se seu supermercado é caro ou barato

TL;DR — O cliente compara ~40 itens, não os cinco mil da sua loja. Aqui está a lista dos 40 produtos-chave (KVI — Key Value Items) que decidem se o seu supermercado é lembrado como caro ou barato, curada a partir de encartes reais do varejo brasileiro. Explicamos o que é KVI, os quatro tipos de produto do sortimento, como identificar os seus, e o que fazer com o preço deles antes de publicar o próximo encarte.

Um cliente entra na sua loja no sábado de manhã. Ele passa na frente da gôndola de arroz, olha o preço. Passa no leite, olha o preço. Passa no óleo. Chega no hortifruti, olha o quilo do tomate e o quilo da banana. Em uns três ou quatro preços — sem calculadora, sem app, sem comparar embalagem — ele já formou uma opinião: essa loja é cara.

Não interessa que os outros oito mil itens da sua loja estejam competitivos. A conta que ele faz na cabeça é essa: se o arroz e o leite tão caros, o resto deve estar também. E ele vai contar isso pro vizinho no domingo.

Seu supermercado é caro ou barato? A resposta cabe em 40 produtos. Essa é a régua de preço da sua loja, e é ela que decide reputação — não o total de SKUs, não o horário de abertura, não a fachada.

O que é KVI, e por que “produtos-chave”

A literatura internacional de varejo chama esses itens de KVI — Key Value Items. É o termo técnico, cunhado no varejo de grocery norte-americano e europeu na década de 1990 (a Harvard Business Review já discutia estratégias de precificação por segmentação de valor há mais de uma década). Aqui a gente prefere chamar de produtos-chave, porque é o que eles são: a chave da percepção de preço da loja inteira.

A literatura internacional descreve o comportamento assim: os produtos-chave representam entre 8% e 15% do sortimento — pouca coisa em número absoluto — mas carregam a percepção de preço do negócio todo. Se o preço deles está bom, o cliente presume que a loja inteira é barata. Se está caro, ele presume que a loja inteira é cara. É o efeito halo, e ele funciona dos dois lados.

A literatura chama essa impressão geral de percepção de preço (imagem de preço, ou price image em inglês). Ela não se forma pelo sortimento inteiro — se forma pelo que o cliente de fato vê: encarte, cartaz de gôndola, story do WhatsApp, TV indoor, faixa na fachada. E o que ele vê são justamente os produtos-chave, porque são os que todo supermercado anuncia toda semana. É por isso que a briga acontece ali — o campo de batalha é a comunicação. Aprofundamos esse ponto em outro post.

Isso muda como você olha pro encarte. O encarte da semana não precisa ter tudo barato. Ele precisa ter os produtos-chave certos, no preço certo, mostrados de um jeito que o cliente entenda. O resto sustenta a margem.

E antes de continuar, um cuidado: os produtos-chave da sua loja não são iguais aos do vizinho. Eles têm um núcleo comum — os que qualquer cliente decora, em qualquer bairro do país — e um pedaço regional, que depende da praça. A lista aqui embaixo é o núcleo comum. Sua loja provavelmente tem mais.

Produtos-chave não são a única categoria

Antes de mergulhar na lista, vale separar quatro tipos de produto pela função. Trocar um pelo outro na cabeça é o erro mais comum de encarte de supermercado independente. A cartilha do Sebrae sobre formação de preço no varejo reforça a mesma lógica: nem todo produto joga o mesmo papel na cesta.

  • Produto-chave (KVI): a régua de preço. Marca conhecida, compra frequente, cliente decora o preço na cabeça. Margem baixa, estratégica. É o item onde você briga.
  • Primeiro preço (FPG): o mais barato da categoria. Marca genérica ou pouco conhecida. Serve pra segurar o cliente que compra por bolso. Margem mínima.
  • Marca própria: o item da casa. Fidelização, exclusividade. Margem maior — porque não tem comparação direta.
  • Back basket: compra de impulso ou baixa frequência. Chocolate, bebida especial, item sazonal. Margem maior, porque o cliente não decora o preço.

Encarte bem-feito equilibra os quatro. Erro clássico: colocar item de back basket no preço de produto-chave. Você queima margem sem construir reputação.

Como identificar os seus

Os quatro sinais do produto-chave são simples de descrever e difíceis de esquecer:

  1. O cliente compra com frequência. Se ele passa toda semana, ele decora.
  2. O preço cabe na cabeça. R$ 4,99 é lembrado. R$ 47,32 não é.
  3. Ele é sensível a preço. Pequeno movimento no preço muda o quanto vende.
  4. Dá pra comparar entre lojas. Marca conhecida, embalagem padrão, medida clara.

Com dado, três coisas ajudam a confirmar:

  • Frequência de compra por SKU — quem seu ERP registra saindo toda semana.
  • Elasticidade — quanto a venda muda quando o preço muda.
  • Presença no encarte da praça — se todo mundo anuncia o mesmo produto toda semana, é sinal de que aquele item é referência de preço no mercado. Ninguém coloca um produto no encarte da semana sem motivo.

Esse terceiro sinal costuma ser o mais subestimado, e é justamente o que sustentou a lista abaixo. Se um item aparece semana após semana em encarte de supermercado do país inteiro, é por um motivo só: o mercado inteiro trata aquele item como referência de preço.

A lista — 40 produtos-chave, curados de encarte real

O critério pra entrar aqui é objetivo. Cada item precisou aparecer em anúncios de supermercados de todo o país, semana após semana — não em um estado ou outro, e não em uma temporada específica. Não é opinião. Não é survey. É o que o varejo brasileiro anuncia com insistência coletiva, e é justamente por essa insistência que esses itens viraram a régua de preço da categoria. O estudo do Instituto DS de Pesquisas (IDSP) sobre os produtos mais promovidos no varejo de proximidade brasileiro mostra o mesmo comportamento em escala nacional: um núcleo pequeno de produtos concentra a maior parte da comunicação de preço do país.

Um detalhe importante: os produtos-chave costumam ser de marca conhecida, e na lista só uma marca aparece explicitamente (Hellmann’s, em maionese). Isso é coerente com o conceito — marca é o que torna o preço comparável entre lojas. Onde a comparação acontece pela commodity (arroz, óleo, feijão), o cliente compara pelo tipo. Onde não tem commodity forte, ele compara pela marca.

A ordem dentro de cada bloco não é aleatória. Do primeiro pro último, vai dos itens que o cliente mais compara pros que ele menos compara. Leite, arroz e feijão abrem a mercearia porque são os campeões — os preços que ele grava na cabeça com mais precisão.

Mercearia e básicos — 14 itens (35% da lista)

  1. Leite 1L
  2. Arroz 5kg
  3. Feijão 1kg
  4. Açúcar 1kg
  5. Café 500g
  6. Óleo de Soja 900ml
  7. Macarrão 500g
  8. Farinha de Trigo 1kg
  9. Margarina 500g
  10. Leite Condensado 395g
  11. Creme de Leite 200g
  12. Maionese Hellmann’s 500g
  13. Ovos 30un
  14. Refrigerante Cola 2L

Hortifruti — 14 itens (35% da lista)

  1. Batata 1kg
  2. Tomate 1kg
  3. Cebola 1kg
  4. Cenoura 1kg
  5. Batata Doce 1kg
  6. Chuchu 1kg
  7. Banana 1kg
  8. Maçã Gala 1kg
  9. Laranja Pera 1kg
  10. Limão 1kg
  11. Melão 1kg
  12. Melancia 1kg
  13. Maracujá 1kg
  14. Abacate 1kg

Carnes — 7 itens (17,5% da lista)

  1. Coxa e Sobrecoxa 1kg
  2. Peito de Frango 1kg
  3. Carne Moída 1kg
  4. Coxão Mole 1kg
  5. Contra Filé 1kg
  6. Costela Bovina 1kg
  7. Bisteca Suína 1kg

Limpeza e higiene — 5 itens (12,5% da lista)

  1. Detergente 500ml
  2. Sabão em Pó 800g
  3. Papel Higiênico 12 rolos
  4. Sabonete 85g
  5. Creme Dental 90g

Um achado que vale destacar

A literatura internacional de KVI costuma dar exemplos de leite, pão e banana — o padrão de mercearia norte-americano. No Brasil, hortifruti empata com mercearia como maior bloco da lista, com 14 itens cada um. Cliente brasileiro compara preço de tomate, cebola e batata do jeito que o americano compara preço de leite. É um traço bem nosso, e um lembrete pro dono: hortifruti não é só perecível de operação — é vitrine de preço. A ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados) também destaca hortifruti como categoria estratégica de tráfego em suas publicações anuais.

O que fazer com o preço dos seus produtos-chave

A regra que rege a precificação dos quarenta é simples: margem menor nos produtos-chave se paga no resto da cesta. O cliente que veio buscar o arroz barato leva outros vinte itens junto, e é neles que a margem da loja mora.

Isso muda o cálculo em três pontos:

1. Errar pra cima nos produtos-chave é caro. Se o cliente vê o kg de tomate 20% mais caro que a média da praça, ele não pensa “esse tomate tá caro”. Ele pensa “essa loja tá cara”. E generaliza. Uma semana com produto-chave anunciado acima da praça suja a reputação de preço da loja por meses.

2. Não dá pra ser o mais barato em tudo. Você não tem verba pra brigar por preço nos oito mil itens. E não precisa. Precisa escolher os quarenta — ou seu recorte deles — e brigar ali. O resto sustenta.

3. Antes de publicar o encarte, você precisa saber onde tá perdendo. Publicar sem comparar seu preço anunciado com o da praça, produto a produto, é assinar embaixo sem ler. Você vai descobrir na segunda de manhã, quando o cliente comentar com a operadora do caixa.

Antes de publicar o próximo encarte

O ponto do post não é que você abaixe o preço de quarenta itens. Ninguém tem verba pra isso, e não é isso que ganha cliente. O ponto é você saber quais são os quarenta, comparar seu preço com o que a sua praça anuncia toda semana, e decidir onde brigar antes de publicar o encarte.

Comparar é o passo que costuma ficar de fora. Não porque o dono não sabe fazer — porque dá trabalho, e o trabalho compete com dez outros na sexta à noite. Mas é ali que a decisão de “cara ou barata” da sua loja é ganha ou perdida.

São 40 itens. Seu sortimento tem milhares. É neles que a conversa sobre preço acontece.

Perguntas frequentes

O que significa KVI e por que a gente chama de “produtos-chave”?

KVI é a sigla de Key Value Items — em português, itens de valor-chave. É o termo técnico da literatura internacional de varejo pra descrever os produtos que o cliente usa como régua de preço da loja inteira. A gente prefere chamar de “produtos-chave” porque descreve exatamente a função: são a chave da percepção de preço.

Todos os supermercados têm os mesmos produtos-chave?

Não. Existe um núcleo comum — os 40 desta lista, que aparecem em encarte no país inteiro. Mas cada loja tem produtos-chave regionais que variam com a praça, o público e o mix da concorrência. A lista é o piso comum, não o teto.

Qual porcentagem do sortimento os produtos-chave representam?

Entre 8% e 15% do sortimento total, segundo a literatura internacional de varejo. Poucos itens, mas eles carregam a percepção de preço da loja inteira por conta do efeito halo.

Como descubro quais são os meus produtos-chave?

Três sinais ajudam: 1) frequência de compra por SKU no seu ERP, 2) elasticidade a preço (quanto a venda muda quando o preço muda) e 3) presença no encarte da praça — se todo mundo anuncia o mesmo produto toda semana, é sinal de que aquele item é referência de preço no mercado.

Preciso baixar o preço dos 40 pra ganhar cliente?

Não. O ponto não é baixar tudo — é saber onde você está em relação à mediana da praça, produto a produto, e escolher onde brigar. Ninguém tem verba pra ser o mais barato em tudo. Precisa ser competitivo nos que mais pesam.

Marca própria é KVI?

Não. Marca própria é uma categoria à parte no sortimento: item da casa, ferramenta de fidelização, sem comparação direta com o concorrente. Isso significa margem maior — o oposto do KVI, que trabalha com margem baixa e estratégica.

O que é o efeito halo em preço de supermercado?

O efeito halo é o fenômeno em que a percepção sobre poucos itens contamina a percepção sobre a loja inteira. Se o cliente vê o arroz 12% acima da praça, ele não pensa “esse arroz tá caro” — pensa “essa loja tá cara”. E generaliza pro resto do sortimento, mesmo sem conferir.

O encarte da semana precisa ter todos os 40 itens?

Não. O encarte precisa ter os produtos-chave certos pra sua praça, com preços competitivos, e os outros itens (marca própria, back basket) sustentando a margem. Escolher entre os 40 é parte da decisão editorial da semana.

Se você quiser comparar seu preço anunciado com a mediana da sua praça — de forma anônima e agregada — a plataforma da DS Marketing cruza os encartes da região e mostra, produto a produto, onde você está acima ou abaixo. Fale com um especialista →